Descanso

Descanso

Por vezes a algazarra da nossa vida torna-se de tal forma ensurdecedora que não ouvimos o nosso próprio corpo a dizer que devemos abrandar.

O nosso corpo é de tal forma sábio que nos dá sinais daquilo que precisa. Se precisa de comida, temos fome, se precisa de água, temos sede, se precisa de descanso, sentimos sono ou a necessidade de fazer um intervalo. O problema é que, desde cedo, na nossa existência enquanto indivíduo, somos treinados a desconsiderar esses avisos naturais. Vamos nos afastando dos ritmos biológicos a que estamos habituados enquanto espécie há centenas de milhares de anos para irmos urdindo outros ritmos que não nos são naturais, que não estão de acordo com as nossas necessidades fisiológicas.

Um deles é o descanso. Estamos tão afastados dos ritmos basilares do ciclo solar que não percebemos a violência que provocamos ao nosso próprio corpo em estarmos constantemente a negar as necessidades que esse mesmo corpo tem em repousar, em abrandar. Até porque é, desde logo, quando esse corpo sossega que se regenera e consegue estabilizar e repor aquilo que é necessário colocar ab initio.

Quando somos crianças isso é claro como a água. Precisamos de dormir muito e constantemente, cerca de 16 a 18 horas por dia. Progressivamente, a necessidade de dormirmos vai diminuindo até chegar às 7-8 horas de sono diárias que, em média, os adultos têm. No entanto, e isto parece desnecessário dizer, quer as crianças, bebés de colo, quer os adultos ou as pessoas idosas, todos têm necessidade de dormir determinadas horas por dia. Se isso não acontecer durante algum tempo, que pode ser muito curto, primeiro, altera-se a capacidade de concentração e retenção de memória, depois as próprias funções fisiológicas podem ser afetadas e entrar em falência. Não se ria da próxima vez que alguém lhe disser que está a morrer de sono. É verdade! Pode-se realmente morrer de sono. 

Há, no entanto, campeões que parecem resistir muito bem sem as horas de sono que outros necessitam respeitar escrupulosamente para que funcionem no dia seguinte. Pessoas que precisam de 4 – 5 horas diárias de sono para funcionar. A verdade é que o organismo deles resiste a esse ritmo muito bem e eles funcionam maravilhosamente ao lado dos outros, comuns mortais, muitas das vezes até mais acordados inclusive.

Já os analisei (com alguma inveja-se, diga-se!) e desse estudo não conclui que eles tivessem uma constituição especial, ou consumissem qualquer substância, sólida ou líquida, que lhes aumentasse a resistência ou diminuísse a necessidade de dormir. Do que conclui que há pessoas verdadeiramente afortunadas sobretudo naqueles momentos em que, penalizada por uma noite mal dormida, ou mesmo por uma série de noites mal dormidas, nos levantamos em corpo da cama e nos arrastamos para o trabalho e lá está a cotovia, ou a andorinha da manhã, resplandecente, inteira e perfeitamente funcional com o cérebro ativo.

Há, claro, os que se encontram do lado oposto do espectro: aqueles que precisam de dormir 10 ou 12 horas por noite. Confesso que, nesta fase da minha vida, quando dormir uma noite inteira seguida é uma miragem, essas pessoas parecem-me muito afortunadas e mesmo invejadas. No entanto, se depois de uma semana, pelo menos, a dormir de acordo com o meu ritmo próprio as horas de sono de que o meu corpo necessita, parece-me que olharia para essas pessoas em momentos diários de hibernação sazonal com uma certa irritação causada pela minha incapacidade de entender o que pode levar uma pessoa a precisar de dormir quase metade do dia em que tanta coisa tem que ser feita. Aliás, pensando melhor – o que não deixa de ser difícil graças ao meu cérebro estar cronicamente privado de sono há mais de uma década – poderia auto propor uma experiência nesses moldes para testar se acabo por chegar a essa conclusão, também no meu caso. Ou se ela é apenas uma ilusão especulativa do meu cérebro privado de descanso. Aceito patrocinadores que possam financiar este momento de necessário afastamento das minhas atividades profissionais e portanto geradoras de rendimento….

Seja qual for o número de horas que cada um de nós necessite dedicar à travesseira, e repito, é mesmo essencial que o faça, deve fazê-lo com uma disciplina de sono.

Também aqui há as mais variadas preferências: com luz de presença, sem luz de presença, com música ambiente, com a televisão ligada, com pijamas de flanela, de seda, de algodão, etc, etc. No fundo, e se alguém me pedisse conselho sobre este assunto em particular eu recomendaria, com todo o meu amor e carinho, a opção por aquilo, exatamente aquilo que funciona com a pessoa em causa. Com uma determinada rotina que também faz maravilhas às nossas crianças pequenas na hora de dormir, a nossa própria passagem para o vale dos lençóis poderá ser mais fácil, mais tranquila.

Fiquem bem e durmam melhor!

Olga Canas

Olga Canas é mãe de três meninos. Mais alguns "filhos" a long the way, acrescentariam pessoas amigas. Mas apesar da sua apetência (ou não!) para as funções maternais, ela recusa ser encaixada apenas nessa categoria. Filha de Coimbra, aí estudou, com grande orgulho, Direito. Essa ponte para o Mundo fê-la atravessar todo um universo de descobertas e, sem nunca perder a coragem, ousou partir por esses mares tantas vezes navegados e conquistar muito mais do que lhe estava destinado.
Encontrou algum lar durante algum tempo nos Países Baixos, em Macau, em França, no Brasil e no Reino Unido. E durante um inesquecível instante nas Maldivas...
E regressou para o aconchego materno da sua Lusa Atenas. Foi com um filho, regressou com três!
E são essas as contas que importam: três!
Pelo caminho foi estudando, trabalhando e aprendendo. Voltou mais desencantada, mas mais experiente para derrotar o ceticismo. Quem a conhece sabe que as suas armas são o otimismo e o sorriso!
O abraço dela, esse é lendário!

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